Pra Vinicius de Moraes

A ascensão da nova classe rap

Outubro de 2002. O grupo Racionais MC’s interrompe um período de cinco anos sem lançamentos para colocar nas ruas o álbum duplo Nada Como Um Dia Após O Outro Dia. Na faixa Da Ponte Pra Cá, a décima do segundo disco, Mano Brown e Ice Blue narram as diferenças entre os ouvintes de rap da periferia e dos grandes centros urbanos. Embora a desigualdade social ainda seja o grande problema estrutural do Brasil, nos doze anos que separam a divulgação da música à publicação desta reportagem, a sociedade brasileira experimentou transformações que encurtaram a distância entre os dois extremos da ponte. O rap, inevitavelmente, acompanhou esse processo.

Abreviação do inglês rhythm and poetry (ritmo e poesia), o rap faz parte do movimento hip hop, cujos principais elementos são o break, o grafite, o DJ, o MC e, por que não, o conhecimento – ou a sabedoria. Assim como Vinicius de Moraes poetizou temas como o amor, a religião e a crítica social, os rappers rimam sobre os desmandos das autoridades e a falta de oportunidades nas periferias brasileiras há quase quatro décadas. Durante este período, o rap se firmou como um dos principais instrumentos de denúncia contra a desigual divisão de classes da sociedade brasileira e suas consequências diretas: o racismo, a criminalidade e o consumo de drogas. Com a mesma relevância, destacou-se como expressão cultural legítima dos guetos, versando sobre amor, fé, esperança e o próprio fazer artístico.

Na mesma letra de Da Ponte Pra Cá, Mano Brown cita diversas quebradas paulistanas antes de sentenciar que aquele universo é “muita treta pra Vinicius de Moraes” – talvez pelo fato de o poeta representar um suposto mundo letrado e erudito que fica do outro lado da ponte. Mas, se é que uma ponte serve para separar em vez de unir territórios distintos, o rap foi capaz de atravessá-la, simbólica e fisicamente. Alcançou o centro, os bairros nobres, os ouvidos mais distintos e, com o auxílio da internet, encontrou um lugar de destaque na música brasileira. Grandes shows, aparições na mídia tradicional e letras em tom mais moderado agora acompanham a carreira de uma geração de rappers que, apesar de viver um novo momento, ainda carrega consigo as influências dos pioneiros.

Este é um trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, feito sob a orientação de Juliana Serzedello Crespim Lopes, em 2014. Para melhor compreensão, aconselhamos que a leitura dos capítulos seja feita conforme a ordem numérica.

Dos autores,
Amanda Massuela
Bianca Castanho
Edoardo Ghirotto