Linhas Tortas

A contundência do rap nacional extrapolou os limites da periferia
e atingiu em cheio as classes mais ricas. Enquanto tomava de assalto
os espaços nos grandes centros urbanos, uma lacuna no diálogo
com as quebradas virou terreno fértil para a disseminação de
outras ideias e estilos

Antes de o rap tomar a cidade de São Paulo, a febre entre os jovens negros no fim dos anos 1970 e início da década de 1980 eram os bailes black. Espalhadas por casas nos quatro cantos da cidade, as festas eram uma celebração à música negra – que, apesar de ter seus maiores ícones nas figuras de James Brown e George Clinton, já se reconhecia no Brasil principalmente nas músicas de Jorge Ben e Tim Maia.“Você precisava ver como aquelas pessoas ficavam contentes quando o cara anunciava as músicas do James Brown. Foi ali que eu me converti à soul music. Quando o DJ tocava esses sons, ele dava uma introdução como se fosse um MC e falava coisas que penetravam em você, te davam vontade de conhecer mais”, recorda o pioneiro King Nino Brown. Foi nos bailes black que os moradores das periferias tiveram maior contato com as primeiras sementes da cultura hip hop, que já vinham se fincando no centro paulistano. Mas, de imediato, a aceitação do público dentro das festas não foi das melhores, uma vez que as equipes de som acreditavam que, por conta do peso da mensagem, o rap não se encaixava na principal proposta dos bailes: a diversão. Os artistas, então, passaram a procurar casas noturnas que se dispusessem a oferecer o espaço para a difusão de sua arte. “No início, o rap não estava na periferia, mas no centro, nas pessoas que produziam em suas casas e no circuito da playboyzada. Era um tempo em que se fazia som na região de Pinheiros e Vila Madalena. Este foi o circuito que abriu as portas para nós”, explica Sharylaine, 45.

Baile Black

Baile Black

Crédito: Acervo Pessoal/King Nino Brown

O contato com os bailes, no entanto, possibilitou que o rap se popularizasse pelas periferias de São Paulo. Lá, ele ganhou corpo como um agente contestador, o que não condizia mais com os ambientes que de início ocupou no centro. “Quando mais tarde o rap volta para o centro, ele já está sem contexto. Já perdeu o protesto, o dedo na cara, o olho no olho”, opina Sharylaine. A música, no entanto, é abstrata, e mesmo que o rap se identifique mais com as ruas, ele é livre para alcançar quantas pessoas lhe for possível – especialmente quando impulsionado por uma ferramenta como a internet. “Temos todos os motivos para sermos preconceituosos, mas não somos. O rap é acolhedor. Se formos fazer um show onde só tenha criança, vamos fazer um show para as crianças. Para a favela, para a cadeia, em Florianópolis só para as loiras. Não tem problema nenhum, é a nossa mensagem que está sendo passada”, ressalta Tio Fresh. Foi inevitável, portanto, que houvesse uma demanda entre as casas noturnas frequentadas pelos chamados “playboys”. “Essa evolução criou necessidades que forçaram a própria galera que produz rap a atender essa demanda. Se você tem um público cativo que te assiste no YouTube e você não faz show para eles, então quem é que vai ao seu show?”, completa Max B.O.

Em setembro de 2013, o Racionais MC’s fez um show na casa noturna Royal, cujo público era de aproximadamente 600 pessoas e o camarote mais caro chegava a 3.500 reais – assim como Dexter e Emicida subiram em palcos do Baixo Augusta em 2014. A Chocolate, uma das festas de rap mais tradicionais de São Paulo, também é realizada numa balada bem estruturada, a Clash Club, na Barra Funda. Ao mesmo tempo em que seguem a lógica de oferta e demanda ao cobrarem mais caro de quem pode pagar, muitos rappers aproveitam o aparato técnico das grandes casas noturnas para levarem seus shows a outros níveis de qualidade. “Quando chegamos num lugar, nós vamos para cantar, para fazer música. Tudo depende muito de como você é recebido e se o público está disposto a curtir. E por ter mais grana, é mais propenso que a casa seja mais louca, o som seja bala e o microfone esteja melhor. Esse é nosso trabalho. Chega a ser caô se você fala o tempo todo de querer ser arte educador, ONG, ou qualquer coisa do tipo”, destaca Rincon Sapiência.

Os Dois Lados da Ponte

Há tempos o rap deixou de ser exclusividade das periferias. Cada qual à sua maneira, pessoas de universos e vivências distintas consomem e absorvem a música e as ideias que ela carrega.

Além de aproveitarem os shows em lugares mais sofisticados para fazer caixa, os rappers também carregam pretensões que vão além da divulgação de suas músicas. Propagar mensagens críticas entre um público de balada pode ser desafiador num primeiro momento, já que “a maioria dessa galera vê apenas a oportunidade de se sentir mano”, conforme aponta Max B.O. O próprio MC, no entanto, ressalta a importância de se “plantar algumas sementes” nem que seja entre “duas ou três pessoas que estavam prestando atenção”. Há, inclusive, uma busca cada vez maior pelo teor lírico do rap entre pessoas que frequentam faculdades privadas e estão em busca de artistas que expressem as contradições da sociedade aprendidas dentro de sala de aula. “A gente sempre quis que a nossa mensagem fosse pra todos, independentemente de classe social. E talvez o cara que fez uma faculdade queira ouvir rap porque é uma coisa mais cerebral, mais intelectual. Não digo que a periferia não seja intelectual, mas às vezes a galera não está a fim de ouvir uma coisa mais pensativa”, supõe Rhossi. Da mesma forma, jovens e adultos que moraram em países onde o rap é predominante sobre outros gêneros, como nos Estados Unidos, buscam nas músicas nacionais um meio de seguir fazendo parte de um movimento cultural que de certa forma marcou um determinado período de suas vidas. “Conheço vários caras que não são da periferia e ouvem rap. São caras que passaram um tempo estudando lá fora, ouvindo rap o tempo todo – porque lá, você entra no avião, entra numa loja, liga o rádio e só toca rap, até os polícias estão de bombeta na cabeça. Esses caras vão chegar no Brasil e vão querer acompanhar o rap daqui também”, aponta DJ Cia.

Campo Minado

Campo Minado

Dexter e MV Bill apresentam o projeto 'Campo Minado' no Carioca Club, casa de shows em Pinheiros, zona oeste de São PauloCrédito: MuitaTretaVM

Embora o alcance do rap seja incontrolável pelos artistas, é um consenso no movimento hip hop que aqueles que se dedicam a acompanhar o gênero devem manter uma postura condizente com o que é passado nas letras das músicas. “Existem muitas pessoas do lugar de onde eu vim que não fazem rap, mas merecem tanto respeito quanto eu. Às vezes a pessoa diz que ama o cara que faz a música, mas não respeita quem está do seu lado. É por isso que numa música eu digo que quero respeito aos meus iguais. Não adianta nada falar que ouve rap, que se identifica muito, e não respeitar o cara que limpa a sua rua, a mulher que limpa sua casa, a pessoa que trabalha no metrô ou atende numa loja”, elucida Kamau. Markão, do grupo DMN, acrescenta que o rap é um dos poucos gêneros “que ainda conserva no seu discurso musical um conteúdo que pode chamar a atenção das pessoas e fazer com que elas se mobilizem” em torno de uma causa. Mas, por mais que seja esclarecedor para alguns, as diferentes formas com que o gênero é consumido não deixam de refletir as desigualdades sociais do país. “Vários caras já abaixaram o vidro da Cherokee e me reconheceram. No aeroporto os caras dizem que nunca viveram na favela, mas que a minha música é foda e foi discutida na faculdade. A minha música é feita para fazer o bem para as pessoas, mas isso não significa que eu esteja jantando na mesma mesa com elas, se é que você me entende. Isso é outra fita”, diz Dexter.

Há na fala de Dexter uma provocação contundente ao modo como o rap brasileiro se relaciona com os espaços em que ele se insere na sociedade. Ao mesmo tempo em que experimentou novas possibilidades nos grandes centros urbanos e entre as elites, o gênero sofreu no final da década de 2000 com a perda de força nas áreas em que, teoricamente, deveria ser mais forte: as quebradas. E a lacuna não tardou a ser preenchida. A explosão de uma nova vertente do funk carioca, denominada funk ostentação, invadiu os bailes, rádios e celulares dos jovens das periferias. “Não gosto de generalizar, mas a massa quer ouvir mais o funk. E eu vejo que o funk dominou um pouco essa bandeira do rap dentro do gueto. Na década de 1990, o gueto só ouvia rap, e hoje não é bem assim”, destaca Rhossi. “Quando eu vou até a Fundação Casa e falo com um moleque de 12 anos, por exemplo, eu percebo que ele não conhece os raps que eu conheci quando era jovem. Ele sabe meia dúzia de raps, mas conhece todos os funks que estão na mídia. E ele não tem culpa disso acontecer”, pontua Renan Inquérito.

Inspirado na levada, batida e ambientação do Miami Bass, o funk carioca se popularizou nas pickups do DJ Marlboro na década de 1990 e foi reconhecido pelo próprio Afrika Bambaataa, o pai do hip hop mundial, como uma das muitas vertentes derivadas da cultura de rua. Já o funk ostentação vem das ruas de São Paulo e da Baixada Santista. Embora tenha mantido os fundamentos do estilo que o antecedeu no Rio de Janeiro, o gênero trocou a temática do sexo pelo consumo de artigos de luxo como peças de roupas, carros e correntes de ouro. Clipes extremamente bem produzidos também contribuíram para que as músicas dos artistas do ramo estourassem no território nacional. O destaque fica por conta do produtor Kondzilla, idealizador de muitos dos hits que já fizeram história com a vertente. “O funk criou uma forma diferente de se fazer música. Você vê muitos artistas que fazem um monte de show, mas os caras não têm nem disco. É uma parada completamente contrária ao que nós [rappers] fazemos”, ressalta Slim Rimografia.

Muito do sucesso do funk ostentação nas periferias também se deve às transformações urbanas e sociais dos últimos anos. O aumento do poder de consumo na classe média e nas regiões mais populares das cidades influenciou diretamente na ampliação das zonas comerciais para além dos centros urbanos. “Os prefeitos sonhavam em construir praças públicas e espaços de integração social há trinta anos. Mas o que se constituiu como um espaço de lazer e sociabilidade foram os shoppings centers. Esses espaços possuem apenas um objetivo mercadológico e não contribuem de forma adequada para o futuro da população brasileira”, elucida o economista Márcio Pochmann. Sem espaços de lazer disponíveis nas quebradas, restaram aos jovens das periferias os “rolês” nos shoppings. Segundo dados da ONG São Paulo Convention & Visitors Bureau, existem cinquenta e três centros comerciais desse tipo apenas na cidade paulistana. “Quando os bailes blacks terminaram, os shows também acabaram. E uma geração ficou sem ter o que fazer. Essa geração passou a ir aos shoppings do ano 2000 para cá, onde você tem diversões voltadas para o consumo. Quando o cara é apresentado à possibilidade de um ‘rolezinho’, ele vê no funk o que é mais próximo ao momento em que ele está vivendo. Assim como eu falei para a minha geração, os funkeiros estão falando para a deles. É a mesma linguagem”, aponta Sharylaine.

MC Guimê

Nome: Guilherme Aparecido
Idade: 21 anos
Natural de: Osasco, São Paulo

MC Gui

Nome: Guilherme Kaue Castanheira Alves
Idade: 16 anos
Natural de: São Paulo - SP

MC Lon

Nome: Airon de Lima Silva
Idade: 23 anos
Natural de: Praia Grande - SP

MC Rodolfinho

Nome: Rodolfo Martins
Idade: 21 anos
Natural de: Osasco - SP

Mesmo com todas as transformações líricas pelas quais passou, o rap brasileiro nunca foi bem sucedido ao tentar copiar a fórmula estadunidense de rimar sobre bens de consumo, batizada em inglês de bling-bling. Talvez por isso o gênero não tenha se moldado para servir como trilha sonora dos ‘rolezinhos’, o que lhe custou a popularidade entre os jovens da periferia. “O rap não perdeu seu lugar, mas deixou de cuidar de um espaço que estava vago. Ou seja, deixou de cuidar dos que estão chegando. E eu não falo dos artistas, mas da base de ouvintes, dos espectadores”, diz Max B.O. O fenômeno da ostentação entre a juventude pobre é tão forte que até mesmo aqueles que almejavam uma carreira no rap, mas não viam perspectivas de fazer sucesso com as rimas, foram atraídos para o universo do funk. Entre eles está MC Guimê, o maior ícone da vertente. “Falando de uma forma simplória, não tiramos o rap da favela e os boys começaram a cantar o sofrimento das quebradas? O que acontece agora é muito louco, porque a favela canta as riquezas dos playboys. Eu vejo caras andando de ‘golzinho’ e cantando música falando de Ferrari e Porsche. Não sei o quanto de consciência isso trouxe, mas acho que era um pouquinho de um ser o outro, tipo o gringo que vem para o Brasil e quer feijoada, caipirinha, samba e favela. Não sei se é proposital ou se é uma coisa do fluxo”, complementa Max B.O.

Frente ao estrondoso sucesso do funk ostentação, parcerias entre rappers e funkeiros começaram a pipocar no cenário musical, embora a junção dos dois estilos ainda seja muito tímida. Emicida convidou MC Guimê para cantar a música Gueto e, mais tarde, participou do hit País do Futebol, lançado pelo funkeiro antes da Copa do Mundo de 2014. Mano Brown, do Racionais MC’s, também fortaleceu um músico da sua quebrada e participou de um videoclipe do MC Pablo do Capão. “A galera acha que o funk não tem nada a ver com o rap, porque não passa mensagem. Eu também acho, porque o funk é mais entretenimento, para neguinho curtir e dançar. Mas eu não vejo problema em misturar rap com funk. Se for o caso de chegar nas massas de uma forma legal e no nível que o Emicida fez com o Guimê, eu não vejo problema nenhum”, opina Rhossi. Se o rap se aventurou no universo do funk, não é de se espantar que o funk também venha procurar o rap quando resolver optar pela crítica social em vez da curtição. “O Guimê cantava rap, não deu certo e foi cantar funk. Mas ele me disse que vai gravar algumas músicas de rap pesadão”, revela Tio Fresh. “É uma força considerável ele ter esse dom de fazer as duas coisas e de poder inspirar outros moleques da periferia a escrever rap”.

Se, até agora, o funk tem batido mais alto nos falantes, cabe a reflexão de que o rap nunca precisou estar, necessariamente, no mainstream para ser ouvido. Pode ser ingênuo, portanto, dizer que a sua mensagem se perdeu em meio a outros tantos estilos musicais que encontraram força para se popularizar nos últimos anos. “Tem um tipo de pessoa, independentemente do lugar em que ela esteja, que absorve o que chega e o que está fazendo mais barulho. E tem o tipo de pessoa que busca o que talvez seja melhor, ou mais exclusivo. E o rap está aparecendo mais para o tipo de pessoa que busca do que para o tipo de pessoa que recebe”, destaca Kamau. Dexter é outro a endossar o discurso de que o rap permanece vivo por meio de cada ouvinte que se dispõe a captar a mensagem e transformá-la em algo útil para sua própria quebrada. “O verdadeiro rap sempre esteve onde tinha que estar. Na cabeça dos jovens da periferia, na dos caras da minha geração, tocando nos rádios, nos campinhos. Por mais que existissem outros estilos musicais, nosso rap estava lá. E ele tem que estar onde as pessoas querem. O rap é a música da liberdade, ele não veio aprisionar ninguém”. Há também quem diga que o funk já tem apresentado os primeiros indícios de decadência, como Douglas, do grupo Realidade Cruel . Em seu Facebook, ele afirmou que o rap “voltou a milhão nas quebradas”, mesmo com a vertente ligada à ostentação ainda predominando nas periferias.

Rael

Slim Rimografia

Tio Fresh

Rodrigo Ogi

Rincon Sapiência

Kamau

Rhossi

Markão (DMN)

Dexter