Câmera e Luzes

Por meio de fanzines, rádios comunitárias ou blogs, o hip hop
sempre encontrou suas próprias formas de dar a ideia. Mas a
expansão da cultura para todo o país fez crescer o interesse da
mídia tradicional sobre os artistas.

Na tentativa de fazer ainda mais barulho pelos quatro cantos do país, uma ala considerável de rappers brasileiros têm procurado meios de expandir os limites de seus trabalhos. E, além de contar com a internet, os artistas têm apostado cada vez mais no alcance que os veículos de comunicação tradicionais oferecem, sejam rádios, televisões ou jornais. Calejados com relação ao poder de manipulação de grandes conglomerados midiáticos, o processo desta vez tem sido conduzido pelos rappers de forma a impedir que estes intermediadores influenciem na poesia de suas letras. Foi justamente por este motivo que o rap, durante muito tempo, se distanciou dos monopólios de imprensa e buscou os próprios meios de divulgação. Dessa resistência surgiram as fanzines – publicações independentes e artesanais de baixa circulação – voltadas somente para o movimento hip hop, e as rádios comunitárias, que operavam em frequências limitadas. “Entre os anos de 1996 e 1999, eu trabalhei em uma rádio comunitária com um grupo de pessoas que acreditavam e queriam divulgar o rap. Nós queríamos falar sobre as festas, bailes e pontos de encontro, mas a mídia formal não nos dava nenhum espaço”, conta Jair “DJ Cortecertu” dos Santos, editor do portal Bocada Forte desde 2008.

Na década de 1990, com a expansão do movimento hip hop pelo país, novos projetos de mídia começaram a surgir. Entre eles, as revistas Rap Brasil, Rap BR, Rap News, Planeta Hip Hop, Cultura Hip Hop e Graffiti contavam com boa tiragem e mantinham o público informado sobre as novidades da cena urbana. Algumas rádios, mesmo sem incentivos publicitários, também abriram pequenos espaços em suas grades para o rap, como a Metrô FM, que transmitia o Dr. Rap, a Manchete FM, com o Black Beat, e a 105 FM, cujos programas Espaço Rap, Rap Du Bom e Balanço Rap estão há mais de uma década na ativa. “O Balanço Rap estourou porque, além de tocar os raps, trazia também músicas de balanço e deixava a coisa mais suave. A audiência era tão grande que a rádio concedeu mais uma hora para o programa depois que eu pedi. É o único programa que se mantém até hoje no ar com três horas de duração”, diz o locutor Paulo Brown, que comandou a atração até 2011. O mesmo não se pode dizer das revistas, que, embora contassem com boa aceitação no movimento hip hop, não conseguiram sobreviver além dos anos 2008 e 2009. O vácuo entre os meios de informação resultou na popularização dos portais especializados na internet. Enquanto a rede mundial de computadores ainda engatinhava no país, sites como Bocada Forte, Real Hip-Hop e Rapevolusom, além de diversos blogs, já formavam um público cativo.

DJ Cortecertu

DJ Cortecertu

Crédito: Reprodução-Facebook

Por que o Bocada Forte interrompeu suas atividades?

As pessoas foram saindo, porque [estes sites] são projetos que você vai mantendo sem ter o reconhecimento. Você precisa tocar sua vida. Eu fui segurando junto com uma série de pessoas, mas chega uma hora que não dá. Eu lido com conteúdo, não sou técnico nem manjo de web design. Tivemos uma porrada de ataque de hackers até que eu decidi tirar o site do ar, porque não estava conseguindo mais levar. Só que eu me comprometi a voltar [com o Bocada Forte] quando estivéssemos preparados. E a partir do momento que o site entrasse no ar de novo, nós íamos trazer essa ideia de aprofundar as coisas. Teremos os posts rápidos e voltados para o Facebook, mas vamos nos aprofundar em alguns temas. Hoje nós precisamos muito disso.

Em quais questões você acha que os sites especializados em rap precisam se aprofundar?

O rap chegou para mim e falou o que eu precisava escutar, não só o que eu queria ouvir. E isso mudou. Hoje os blogs precisam voltar a ser um pouquinho engajados, ter pelo menos um post por dia que tenha a ver com a realidade. Nós precisamos falar de racismo, de homofobia, que é um tabu dentro do hip hop. Se for para ser reflexo da sociedade, e não reflexão, então vai se foder. Não dá para dizer que o rap é machista porque o mundo é assim. Isso foi um argumento usado pelo Emicida, foi um argumento usado pelo Ice Blue, até pelo Mano Brown. Quando esses ícones falam, fodeu, porque aí os papagaios vão todos na bota. Não é assim. Se nunca mudou, por que é que nunca vai mudar? O rap é machista para caralho, as minas só aparecem para fazer backing vocal. E as que fazem umas rimas só aparecem durante o mês de março [quando se comemora o Dia da Mulher]. É por isso que eu digo que falta mina dominando a parada. Quando eu falo que a mídia é branca, você pode ser branco e não ser racista, mas você vai ver as coisas a partir da sua posição e da sua classe social. Fica foda se não tiver mulher escrevendo, rimando mais e contestando. Eu sei que branco não gosta muito de quando preto fica falando sobre a questão racial. E machista também não gosta de mulher falando sobre a questão de gênero. Você vai fazer o que os caras gostam? Eu não estou nem aí. Você tem que levar algo a mais, nós estamos precisando disso.

O que esperar da volta do Bocada Forte?

Um dos motivos que levou a gente a parar com o Bocada Forte foi a tristeza de ver que nossa mensagem não estava sendo mais importante nem relevante para os caras que gostam. Eles querem o bagulho rápido, mas não querem pensar mais. Isso foi um baque nessa geração que veio antes da internet 2.0. Hoje você coloca um clipe de balada e só publica no seu site dizendo que o MC está na balada. E agora a gente está voltando com as coisas dessa forma. Sabemos que não vai ser a mesma coisa, mas estamos embalados por aquele clima de nostalgia. Queremos fazer uns bagulhos mais aprofundados, umas entrevistas iguais às que a gente fazia, tratar de vários temas. A gente até se ilude achando que vai ser a mesma coisa. Vai ser a mesma coisa o caralho. Não sabemos se vai ter aceitação. Geralmente quem para e tenta explicar as coisas nesse mundo acaba se fodendo. Mas a gente vai tentar.

A expansão da internet pelo território nacional e o avanço da inclusão digital também contribuíram para o fortalecimento de sites atualizados diariamente com informações sobre o rap nacional e outros elementos da cultura hip hop. Entre os principais veículos destinados a esse fim estão o Portal Rap Nacional – que também publica revistas sem periodicidade definida – e o Vai Ser Rimando, cuja estrutura inclui uma revendedora de roupas, discos e livros. A reduzida quantidade de veículos direcionados ao rap, no entanto, preocupa os artistas. Mesmo que sites musicais venham prestando mais atenção ao gênero, como a página virtual da revista Rolling Stone e a versão nacional do portal Noisey, há um apelo geral para que surjam novos espaços de divulgação destinados exclusivamente ao movimento hip hop – ou para que sejam criados meios de fortalecer os já existentes. “Estamos bem representados, sem dúvidas, mas existe um espaço monstruoso não só para a melhora como para a diversificação. Temos de ter veículos que tragam informações sob pontos de vistas diferentes. Talvez o investimento nas pessoas que já estão fazendo esse trampo pudesse resultar em algo grandioso”, diz Guilherme Junkes, criador do portal Vai Ser Rimando. “Assim como a parte musical, acho que teremos uma grande virada em breve. Estamos aprendendo, experimentando e logo menos embala.”

Eduardo Ribas

Eduardo Ribas

Você acredita que, hoje, o rap brasileiro está bem representado com os meios de comunicação que tem ao seu dispor ou é necessário investir na criação de novos veículos?

Nunca é suficiente. Ainda mais por se tratar de um estilo diretamente ligado à periferia. As pessoas ainda têm uma visão deturpada, às vezes têm medo e muitas vezes a comunicação é feita por grandes veículos, como acontece com todos os outros assuntos. Ser um especialista ou trabalhar a formação de outros especialistas é fundamental para que o gênero tenha sua voz não só na música, mas também em todos outros âmbitos, incluindo a comunicação. Aliás, muitos MCs vinham reforçar essa importância de veículos criados e alimentados por pessoas que admiram e respiram o rap, pois a forma que tratávamos os assuntos era séria, profissional e respeitosa, o que infelizmente nem sempre acontecia quando a grande mídia estava envolvida. Então sim, é importante investir em um trabalho de formação e esse coletivo que forma o Per Raps tem planos de criar em breve palestras, debates e workshops de escrita, boas práticas na internet, redes sociais, assessoria de imprensa e tudo mais que misture comunicação e cultura de rua.

Guilherme Junkes

Guilherme Junkes

De que forma você enxerga o interesse repentino da imprensa tradicional e a atenção que agora é dada ao rap brasileiro por portais especializados em música, como a Rolling Stone e a Noisey?

Normal, do mesmo jeito que o interesse do público pelo rap aumentou também. Os portais e os veículos citados, assim como quaisquer outros veículos, trabalham em cima do que vai dar retorno em relação ao público. Se o público fã de rap aumentou, vamos para lá. Num resumão, para mim, chegou um momento que os caras não tinham mais como não falar. Quando a cultura dependia dos veículos em geral para passar uma mensagem, os caras podiam escolher ignorar e a gente voltava pra casa com o rabo entre as pernas (ou não, mas a maioria faria isso). Hoje, com a internet e as mídias sociais, o rap conseguiu fazer um barulhão sem depender desses caras. É tipo época de Copa do Mundo, até os programas de venda e de descarrego na madruga vão querer colocar algo relacionado na pauta. É como se a gente estivesse vivendo uma mini Copa do Mundo do rap, com o diferencial que a nossa não tem tempo pra acabar (e pode não acabar nunca). Mas, não me entenda errado, acho esses veículos extremamente necessários, levam o rap para públicos na outra ponta e isso é importantíssimo. Tudo bem que alguns deles - mais os portais do que os sites especializados em música - possuem uma tendência enorme de colocar alguém que nunca ouviu falar de rap para cobrir as paradas. Mas ok, a gente supera.

As dificuldades em se manter um veículo de imprensa, sejam elas financeiras ou voltadas à audiência, ficaram evidentes durante a trajetória do programa Manos e Minas , única atração voltada para o movimento hip hop na televisão aberta. Há seis anos no ar pela TV Cultura, o programa já passou pelas mãos dos rappers Rappin Hood e Thaíde e, agora, é comandado por Max B.O. “O Manos e Minas é fundamental para o rap. Falando de periferia, eu acredito que o programa deve ser uma das maiores audiências da TV. E eu falo isso com total segurança, porque os medidores de audiência não estão nos lugares onde está o público mais ativo do Manos e Minas ”, aponta o rapper. Para se manter no ar, porém, foi necessária a organização de um abaixo-assinado para barrar a tentativa da Fundação Padre Anchieta de cancelar a atração. Manifestações públicas, incluindo maratonas de shows, também ajudaram a manter o Manos e Minas na ativa. “A galera teve que implorar para ter o programa de volta, e ficou aquela coisa de o rap ter que chorar por espaço. Acabou. A música está aí, os vídeos estão aí, e o rap não pode chorar para aparecer. Ainda existe um preconceito dentro das grandes FMs, até mesmo na TV, e cabe ao próprio rap trabalhar de forma legal para quebrar esse preconceito e continuar em evidência por mais décadas”, opina Rhossi.

Se a ideia é atingir uma quantidade cada vez maior de pessoas por meio dos elementos da cultura hip hop, o Manos e Minas cumpre bem esse papel. Mesmo sendo transmitido por uma rede de televisão que não conta com altos índices de audiência, o programa tem contribuído para derrubar os estigmas que perseguem MCs, grafiteiros, bboys e DJs.

Manos e Minas - A Resistência na Mídia

Exibido pela TV Cultura, o Manos e Minas está no ar desde 2008. O rapper Max B.O, responsável por apresentar o programa, e o videorrepórter Rodney Suguita, conhecido como Maníaco da Câmera, discutem a importância da atração para o movimento hip hop.

Para Slim Rimografia, mais do que derrubar preconceitos, o Manos e Minas também se tornou um dos principais canais de divulgação para os novos artistas do movimento. “A contribuição do Manos e Minas é uma parada muito foda. Eu estava em Belo Horizonte e uma mina me falou que ama o rap cantado por mulher. Ela disse que adorava a Flora Matos e que tinha descoberto a música dela no Manos e Minas . Imagina quantas dessas meninas descobriram o rap dessa forma?”, destaca. A fórmula de sucesso do programa da TV Cultura pode ter contribuído para que os meios de comunicação que antes se recusavam a receber artistas do rap abrissem suas portas. Mas a relação entre os rappers, os seguidores do movimento hip hop e os veículos da mídia tradicional ainda é um tanto quanto turbulenta.

Muito antes de o Manos e Minas ir ao ar pela TV Cultura, a MTV Brasil transmitiu a partir de 1990 o programa Yo! MTV. Inspirada na versão estadunidense, a atração dava espaço para clipes de rappers gringos e produções nacionais. Entre os pesos-pesados que comandaram o Yo! estão o produtor Primo Preto, o rapper Thaíde e o DJ Kl Jay. “A MTV foi uma emissora que nunca teve preconceito. Se formos colocar na balança, ela não passava vários gêneros musicais, mas dava essa importância para o rap”, diz Tio Fresh, que trabalhou como roteirista durante a época em que Primo Preto esteve à frente da atração. A presença do Yo! na grade da MTV, no entanto, foi conquistada a muito custo. A emissora costumava transmitir o programa sem horário definido e às vezes o transferia para as madrugadas. Mesmo diante de tantos obstáculos, sua importância reflete-se até hoje. “Absorvi muita coisa dos VJs e carrego essas influências comigo no Manos e Minas ”, afirma Max B.O. “Era um programa para quem queria ver. Às vezes passava de madrugada, às vezes a versão gringa não tinha legenda. Mas eu aprendi muito do que eu sei, inclusive a falar inglês, assistindo ao Yo!”, completa Kamau, que colaborou com a atração e até entrevistou o rapper Sabotage durante uma premiação do VMB.

O ‘Yo! MTV’ de KL Jay

Nos bastidores de uma festa em São Paulo, o DJ do Racionais MC's conta como transmitiu um pouco da sua personalidade para o programa da MTV Brasil. KL Jay também comenta seu atual projeto 'Estamos Vivos', a série online produzida pela Vice Brasil

A audiência do movimento hip hop fez com que o programa durasse mais de uma década, mas não foi capaz de mantê-lo no ar até a extinção da emissora, em 2013. No ano de 2006, o Yo! deixou de ser exibido e abriu uma lacuna no canal que dizia defender a presença de todos os gêneros musicais em sua programação. Ainda assim, o rap se fez presente nas premiações anuais organizadas pela emissora. As participações explosivas do Racionais MC’s, por exemplo, marcaram essa trajetória. Entretanto, há o sentimento de que a emissora poderia ter feito muito mais pelo rap: “A MTV chamou o Racionais MC’s porque o grupo era um fenômeno. Ela sempre foi assim, levava bandas que já estivessem estouradas. O último VMB foi baseado na urbanidade, mas por que não fizeram isso antes?”, indaga Rhossi. “A emissora poderia ter nos dado muito mais apoio em festivais. Nunca nos foi dada a importância devida. Não estou desmerecendo, mas também não estou dizendo que a MTV fez tudo que poderia ter sido feito”, acrescenta Tio Fresh.

O sentimento com relação ao canal é semelhante ao manifestado com as emissoras da “grande mídia”, ou seja, aquelas que integram conglomerados midiáticos e monopolizam as informações passadas para a maior parte da população. O poderio midiático, que se encontra centralizado nas mãos de poucas famílias brasileiras, pode ser considerado um problema não só para o direito à comunicação no Brasil, mas para manifestações culturais como o rap. “A mídia tradicional, as grandes emissoras de televisão, as rádios e os jornais vivem do mercado. Tudo em que elas botam a mão é para transformar em mercadoria - nada tem a ver com a valorização da cultura e da produção regional”, acredita Altamiro Borges, jornalista e presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Para ele, todos os movimentos culturais, uma vez inseridos no capitalismo, sofrem com o “fetiche da mercadoria”. Em outras palavras, todos estão vulneráveis à cooptação e à sedução causadas pela grande mídia. “Todo mundo quer aparecer na telinha da Globo e acredita que o que ela fala é a verdade do Brasil. Todos gostariam de ter um espaço, e nesse sentido, para conquistá-lo é preciso deixar a rebeldia de lado. É um risco, um poder de sedução muito grande. Por outro lado, há o poder do medo, já que a mídia pode criminalizar movimentos sociais e culturais no particular, tentando sempre satanizá-los.”

Mesmo que lentamente, avanços nesta turbulenta relação entre rap e mídia têm sido registrados nos últimos anos. “Não é uma briga entre os rappers e a grande imprensa. A gente conseguiu esse espaço graças às pessoas que ouviram nossa música e nos tornaram relevantes para a grande mídia. Não faz o menor sentido considerar esse espaço tão importante ou mais do que as pessoas que ouviram nossa música, foram aos nossos shows e vestiram a nossa camisa muito antes de aparecermos no jornal”, pontua Criolo. Alguns rappers passaram a considerar um avanço a divulgação de seus trabalhos em programas de audiência elevada, casos do Caldeirão do Huck e do Esquenta!, da Rede Globo. Tanto que Edi Rock, do Racionais MC’s, fez duas participações para apresentar músicas do seu disco solo, Contra Nós Ninguém Será. Emicida, um convidado frequente da emissora, passou não só a cantar nos programas de auditório, mas também a opinar sobre diversos temas em reportagens veiculada pela emissora. Em uma edição do programa Fantástico, ele expressou sua opinião sobre a qualidade do ensino público no país. Já Thaide, pioneiro do movimento hip hop, se firmou como um dos apresentadores do programa investigativo A Liga, da TV Bandeirantes. Essa aproximação entre rappers e a mídia tradicional, contudo, não tardou a receber críticas.

Um Poeta no Ninho

O rapper Slim Rimografia participou em 2014 do programa Big Brother Brasil (BBB), da Rede Globo. Ele conta como foi a sua relação com o reality show e destaca a responsabilidade de levar conteúdo para os telespectadores da atração.

Um dos comunicados de maior repercussão sobre o assunto em 2014 foi feito pelo rapper GOG, que disse ter rejeitado convites da Globo e da Fifa para se apresentar durante a Copa do Mundo. Ele justificou a decisão dizendo que essas corporações “patrocinam o apartheid brasileiro”. Outra crítica está voltada ao despreparo da mídia tradicional para abordar o viés crítico do rap. “Essa mídia poderia se movimentar com o rap nos diversos projetos que ele tem por aqui. Geralmente o cara faz um disco de rap foda, mas os caras fazem uma matéria dizendo que ele ‘transcendeu o rap’. Ou seja, eles já tentam tirar o cara de dentro do rap”, afirma Max B.O. Para que esse tipo de desinformação se torne cada vez menos comum, existe no movimento hip hop uma ala que defende a mediação entre as partes para tornar essa relação mais sadia. “Há um receio dos militantes mais tradicionais de que essa cultura seja vampirizada, como já aconteceu com o samba e a capoeira. Cabe a nós lutarmos para que isso não aconteça. E não só falando mal e apedrejando, mas entendendo os caminhos que precisam ser tomados. Se a gente quer ser protagonista da nossa história, então temos que nos posicionar como tal”, diz Renan Inquérito.

A discussão sobre o tema, agora, tem se pautado em quais benefícios as aparições do rap na grande mídia podem trazer para a sociedade. Nesse sentido, os rappers têm agido para não ter sua arte controlada pelos veículos de comunicação e não deixar transparecer uma postura incoerente com o que é rimado em suas letras. “O Criolo recebeu uma oferta de um milhão e meio de reais e recusou. Ele ia cantar com a Ivete Sangalo e o Zeca Pagodinho num comercial da Brahma, no Carnaval. Mas como ele ia dizer que ‘não consegue vetar nem comercial de cerveja’ naquela música dele? [Duas de Cinco]. O Criolo não toma cerveja, não fuma maconha, nunca cheirou. Quem você acha que é para recusar um milhão e meio? Um mascarado? Um mentiroso? Aí você vê quem é homem de verdade”, relata Rodney Suguita. Para Markão , do grupo DMN, não há mais espaço para o hip hop “falar com meia dúzia de pessoas que quer as coisas iguais aos anos 1990”, mas é fundamental ter “responsabilidade com a forma como sua produção artística pode influenciar a vida de jovens que amam a cultura”. Ele destaca que, mesmo diante de novas possibilidades e oportunidades, é necessário que o movimento hip hop siga o propósito de “tentar alterar a estrutura política do país para que o jovem preto possa ter um pouco mais de poder e, por meio dele, acesso a um futuro um pouco melhor”.

A última grande menção ao rap na imprensa brasileira partiu de Aranha, goleiro do Santos que durante uma partida contra o Grêmio, em agosto de 2014, foi vítima de insultos racistas por parte da torcida gaúcha. Aranha, 33 anos – quinze deles dedicados ao futebol profissional – foi chamado de “macaco” no gramado da Arena Grêmio, uma situação que, conforme declarou à reportagem do Fantástico, infelizmente é considerada “normal” dentro do futebol. Mas o goleiro soube como lidar com o episódio, que de forma alguma é inédito em sua vida: “Eu tive a felicidade de aprender muito com o rap. Sempre foi um pessoal sofrido, acusado e agredido, mas muito bem informado sobre política, religião e sobre a história do nosso país. Como na periferia a gente ouve muito rap, porque é aquilo que está na nossa realidade, eu cresci preparado para esse tipo de situação", disse à atração dominical.

Como afirma Dexter , o rap carrega em seu nome não apenas o “ritmo e poesia”, mas também a ideia de “revolução através das palavras”. Ao reverenciar “mestres” como Martin Luther King, Marighela , Zumbi e Malcolm X, o rap fala diretamente para milhares de pessoas que são oprimidas diariamente, seja pelo racismo, pela violência policial, pela falta de acesso às cidades e à mídia. Oprimidas pelo sentimento de que não pertencem aos processos de produção de cultura, pois desde o princípio as fizeram acreditar que eles estavam restritos ao lado de lá da ponte. “O rap mudou muito a minha vida. Eu costumo dizer que ele salvou não só a minha, mas a vida de milhares de jovens da minha geração – e que continua salvando até hoje”, diz Dexter. Para o rapper de 41 anos, o rap não tem o poder de “salvar o mundo”, mas pode contribuir para transformar o “seu mundo”. “O rap é a música da liberdade. Ele existe para libertar as pessoas e, a partir daí, fazer um mundo melhor. De se respeitar mais o ser humano, ser menos frio com as pessoas, entender melhor os presídios no Brasil, os mendigos e as crianças na rua, os maiores e menores abandonados. São várias outras questões que o rap discute com muita propriedade, porque ele é feito de pessoas que também vivem isso quase que diariamente nas ruas de terra da periferia, no campinho de jogo da várzea e nas cadeias”.

"Acho bacana esse compromisso social do rap, essa fidelidade com a comunidade, com o gueto, com a sua quebrada e com o seu povo."

Renan Inquérito

Essa força é inegável e pode ser comprovada na própria fala de Aranha, nas mais de 100 mil pessoas que ouviram atentas à orelhada de Mano Brown durante a Virada Cultural de 2013, ou na trajetória de Sabotage, que deixou o crime de lado para se dedicar às rimas. Mas, para Renan Inquérito, é preciso ter cautela tanto por parte dos rappers quanto dos fãs. “Acho bacana esse compromisso social do rap, essa fidelidade com a comunidade, com o gueto, com a sua quebrada e com o seu povo. Mas isso não pode virar extremismo, algo como uma religião. Isso é perigoso. Cobra-se de um MC o que não se cobra de um prefeito ou de um vereador”, diz Renan que, apesar de não ter dúvidas a respeito do “poder” do rap – “talvez ele tenha feito o que a escola e outros tipos de cultura não fizeram” –, não acha justo atribuir ao estilo musical a função de “salvador”. “O rap não pode ser colocado como bode expiatório para resolver os problemas do mundo. A gente esquece de cobrar dos nossos representantes legais e quer cobrar do MC, que muitas vezes é uma pessoa igual a você, que está trampando para ganhar uma grana e tentar fazer o disco dele virar, sendo que às vezes nem tem como voltar pra casa. Ele é um operário da música, não um super herói, um deus, um cara perfeito que está isento de errar”.

Fato é que o rap tem desbravado um novo mundo nos últimos anos. Empreendedorismo, alta exposição midiática e diálogo com outros estilos são alguns dos temas que seguirão presentes por muito tempo na carreira dos artistas que ascenderam no cenário musical brasileiro. Mesmo exposto a tantas novidades, o rap nacional preservou o compromisso com as causas sociais e ainda mantém a capacidade de transformar vidas. Por mais que de forma gradativa, os artistas têm sido reverenciados não só por públicos distintos no Brasil, mas também fora dele. Chuck D, do Public Enemy, disse em 2011 que "o rap brasileiro é um dos melhores do mundo", justamente por se manter fiel às raízes do que um dia caracterizou o gênero nos Estados Unidos, sua terra natal. Em 2014, durante um show em São Paulo, o rapper reforçou sua opinião sobre o tema: "O hip hop brasileiro é o número um". Como o grupo Filosofia de Rua cantou no já longínquo ano de 1995, "se o mundo inteiro pudesse me ouvir, eu falaria, gritaria, para todo mundo refletir. A informação não pode ficar escondida, conhecimento bem aproveitado é fonte de vida. A vida é um dom divino que ninguém deve tirar, para continuar vivendo estou exercendo meu direito de cantar". É preciso seguir com este pensamento para que o mundo inteiro possa ouvir o que o rap brasileiro tem a dizer.